Preto No Branco - 24/04/2010 - Record Club

O conceito é, pelo menos diferente e a história poder-se-ia escrever como muitas outras histórias. Um grupo de amigos junta-se e grava uma série de canções. Muitos discos e muitas bandas surgiram deste modo, mas não foi de edições cuidadas ou de grandes produções que falámos esta semana, tão pouco de bandas de longa carreira.
Há quase um ano, o multifacetado Beck Hansen decidiu explorar mais um rumo na sua carreira. Habitualmente rodeado de boa música e de talentosos músicos, foi, talvez por isso, natural que o projecto Record Club fosse iniciativa deste californiano.
O conceito é, então, muito simples: um grupo de músicos reúne-se durante um dia, escolhem entre todos um disco e, durante 24 horas, recriam o disco escolhido integralmente. Não tão fácil será a execução, já que não há ensaios ou arranjos prévios.
Poder-se-á falar de genuinidade nesta reunião informal de músicos que, afinal, estão apenas a tocar as músicas de que gostam.
Semana a semana é dada a conhecer uma nova faixa, estando, nesta altura, a ser revelados os temas do quarto álbum reinterpretado. Começámos por pôr Preto no Branco esta história, desde o seu princípio com o álbum epónimo de "Velvet Underground & Nico", cruzando os originais com as versões.

01. Sunday Morning (vídeo aqui)
02. I'll Be Your Mirror

Em 1967, Lou Reed, John Cale, Sterling Morrison e Maureen Tucker lançavam "The Velvet Undergound & Nico", informalmente conhecido como o álbum da banana. Com produção e capa a cargo de Andy Warhol, o disco, na altura sem grande sucesso comercial, tornou-se um dos mais influentes e importantes marcos da história da música no século XX. As letras a cargo de Lou Reed, onde temas controversos como o abuso de drogas, a prostituição ou certas prácticas sexuais menos ortodoxoas eram abordados, conjugavam-se com o experimentalismo musical de John Cale e do próprio Reed. Inesquecíveis temas como Sunday Morning, Venus In Furs, All Tomorrow's Parties, Heroin ou Femme Fatale, um dos temas do disco que conta com a voz da germânica Nico.

03. Femme Fatale
04. All Tomorrow's Parties (vídeo aqui)

O primeiro álbum escolhido para ser tocado integralmente no Record Club de Beck foi "The Velvet Underground & Nico", uma escolha feita pelos músicos que fizeram parte deste dia de gravações. Nigel Godrich, Joey Waronker, Brian Lebarton, Bram Inscore, Yo, Giovanni Ribisi, Chris Holmes, o próprio Beck e Thorunn Magnusdottir, uma ilustre desconhecida vinda da Islândia, que deu voz nos temas que Nico protagonizava nas versões originais e não só.
Cada semana, uma das músicas gravadas por este grupo de artistas foi sendo revelada no site de Beck, acompanhada do registo fílmico dos momentos da gravação. Antes de ouvirmos a versão original de Heroin, ficámos com mais uma das reinterpretações de Beck e amigos, Run Run Run.

05. Run Run Run (vídeo aqui)
06. Heroin
07. Winter Lady (vídeo aqui)
08. So Long, Marianne

A segunda incursão de Beck pelas revisões de discos seguiu uma escolha não de todos os músicos intervenientes mas de um deles, Andrew dos MGMT. Da lista de discos apresentados, "Songs Of Leonard Cohen" foi a escolha, que, faixa a faixa, foi tocada por um grupo mais alargado e possivelmente com mais notoriedade no mundo musical que o do primeiro volume: Ben, Andrew e Will dos MGMT, Andrew dos Wolfmother, Binki Shapiro dos Little Joy, os regressados Brian Lebarton e Bram Inscore e ainda Devendra Banhart. Versões ainda mais diferentes dos originais de Cohen foram sendo reveladas no Outono do ano passado, como o foi a versão que se seguiu, Stranger Song.

09. Stranger Song (vídeo aqui)
10. Teachers

Leonard Cohen é talvez mais conhecido actualmente pela sua carreira musical mas, em 1967, quando lançou "Songs of Leonard Cohen", ainda era a sua carreira como autor e poeta que o tornava conhecido do público. Não será, por isso, de estranhar a beleza lírica por detrás dos dez temas do registo de estreia de Leonard Cohen. Amor, luxúria, raiva, compaixão, sentimentos fortes extravasam das músicas de Cohen. Curiosamente, o primeiro disco de Cohen data do mesmo ano que o dos Velvet Underground, mas não poderiam encontrar-se em campos mais díspares da música pop.
Cohen mostrou-se neste disco, como em toda a carreira, um cantautor que não gosta de grandes artifícios musicais - de facto, este seu primeiro disco estava pensado pelo autor como um registo de voz e guitarra apenas, tendo esta visão sido alterada muito graças à acção do produtor John Simon, que convenceu Cohen a acrescentar mais instrumentos e sonorizações.
Marco no movimento folk, "Songs Of Leonard Cohen" é, também ele, recurso de inspiração para muitos cantautores ainda nos dias de hoje. Temas como So Long, Marianne ou Suzanne são incontornáveis e fazem parte de um imaginário sonoro comum dos anos '60 nos Estados Unidos. Talvez por isso, a versão de Suzanne no Record Club de Beck fosse das mais difícies de digerir. Antes de fecharmos a primeira hora do Preto no Branco, ouvimos o original
de Suzanne e ainda mais uma versão, a de Hey, That's No Way To Say Goodbye.

11. Suzanne
12. Hey, That's No Way To Say Goodbye (vídeo aqui)

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São quatro os volumes conhecidos até agora do Record Club de Beck. Depois de, na primeira hora, termos ouvido parte dos dois primeiros, na segunda hora ouvimos os dois restantes, sempre cruzando as versões e os originais.

13. Grey/Afro (vídeo aqui)
14. Lawrence of Euphoria

Encontros casuais de músicos promovem surpreendentes experiências. Em Junho de 2009, os Wilco passaram por Los Angeles para promover o seu novo álbum. Na mesma altura, Feist estava também por Los Angeles a editar o seu documentário e Jamie Lidell produzia o seu novo disco nos estúdios de Beck.
Decidiram então juntar-se todos a Beck e rumar aos Sunset Sound Studios, os mesmos onde os Rolling Stones gravaram grande parte de "Exile On Main Street". A escolha, desta vez, recaiu em "Oar", o disco a solo de Skip Spence, baterista dos Jefferson Airplane.
A juntar-se a todos os músicos serendipiticamente reunidos no mesmo local geográfico no mesmo momento, estiveram também James Gadson, Spencer Tweedy e Brian Lebarton.
Instrumentos muito diferentes, versões muitas vezes fiéis aos originais. Quase poderíamos jogar ao jogo das diferenças, com o original e a versão de Books Of Moses a sucederem-se.

15. Books of Moses
16. Books of Moses (vídeo aqui)

"Oar" é um disco em tudo inesperado. Convencido de que era o anticristo, Skip Spence, baterista dos Jefferson Airplane, tentou abrir a porta do quarto dos colegas de banda à machadada, invocando uma espécie de exorcismo dos demónios destes. Como resultado, Skip Spence foi internado num sanatório, o Hospital de Bellevue, durante seis meses. Os problemas mentais de Spence eram já conhecidos, pelo que não foi grande surpresa esta clausura terapêutica. Os seis meses que passou fechado resultaram não em grandes melhorias na sua condição mental, mas num conjunto de músicas que vieram a dar origem a "Oar". Gravado em grande parte com recurso a um três pistas, "Oar", de 1969, é um estranho guia pela mente de um homem à beira do colapso mental, onde pontuam estranhos momentos lúdicos e de lucidez, santos e demónios, guitarras destorcidas e raízes folk.
No Record Club, Beck e amigos mantiveram-se fiéis ao alinhamento original de doze faixas, não passando pelas dez que, alguns anos após a edição de "Oar", lhe foram acrescentadas.
Little Hands era o tema que abria "Oar", seguido de Cripple Creek. Ouvimos a versão do primeiro, escutando depois o original do segundo.

17. Little Hands (vídeo aqui)
18. Cripple Creek
19. Weighted Down (vídeo aqui)
20. Guns In The Sky

Começando a captar mais atenção mediática, Beck pôde também dar-se ao luxo, de juntar alguns dos seus músicos preferidos para esta experiência do Record Club. O quarto volume juntou alguns dos nomes que o próprio Beck confessa serem da sua preferência: Liars, Annie Clark e Daniel Hart dos St. Vincent, Sérgio Dias d'Os Mutantes e o sempre presente Brian Lebarton. Fugindo dos discos dos anos 60, esta quarta sessão, primeira para o ano de 2010, foi buscar um dos maiores sucessos comerciais dos anos '80, "Kick" dos INXS, uma escolha patriótica de Angus dos Liars. Até ao momento conhecem-se apenas quatro dos temas, sendo Need You Tonight a última versão a ter sido revelada.

21. Need You Tonight (vídeo aqui)
22. Never Tear Us Apart
23. Devil Inside (vídeo aqui)

Quatro singles nos top 10's, um enorme sucesso comercial e um álbum a levar uma banda aos píncaros da pop mainstream: "Kick" dos australianos INXS foi editado em 1987 e esse foi um dos melhores anos na carreira da banda de Michael Hutchence.
À figura carismática e sensual do líder da banda e aos criativos vídeos por que eram conhecidos os INXS aliaram-se, em "Kick", uma pop consistente e perfeitamente construída para as massas, desde as guitarras às baladas, aos temas que se tornaram hinos das pistas de dança da década de '80 e inconfundíveis temas da história da pop.
Tarefa difícil a de rever clássicos, músicas tão facilmente reconhecíveis. Dos quatro temas até agora revelados no Record Club, fechámos o Preto no Branco desta semana com uma das melhores interpretações de "Kick", a versão para New Sensation, com Angus e Annie nas vozes.

24. Mediate
25. New Sensation (vídeo aqui)

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